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Câmbio: intervenção do BC neutra é ineficaz, deve vender somente dólares à vista

O BC criou a figura da “Posição Cambial Líquida” como demonstrativo novo, e nesta mescla de posições envolve efetivamente dólares efetivos e derivativos que não comprometem dólares efetivos, visto serem liquidáveis não com moeda estrangeira, mas sim “por diferença” em reais.

Com esta amplitude “fazendo parecer” (é a percepção que prevalece) que tudo envolvia dólares efetivos implementou a estratégia de intervenções no mercado de câmbio, conjugando oferta casada efetiva de dólares à vista, reduzindo as reservas cambiais, com swaps cambiais reversos, mitigou os ruídos normais pela venda das reservas e ao final mantinha a neutralidade em relação à formação do preço do dólar, visto que havia um efeito no mercado à vista com a oferta e um contra efeito pela demanda de swaps cambiais reversos no mercado futuro que repercute como “efeito compra (demanda)”.

Ocorre que o mercado de câmbio brasileiro está com problemas no fluxo cambial que persiste negativo, US$. 22,6 Bi até 22/11 e US$ 37,278 Bi de diferença no confronto 2019/2018 mesmo período.

O BC vendeu das reservas até 22/11 o montante de US$ 25,8 Bi, o que supera os US$ 22,6 Bi de fluxo negativo, o que, em tese, neutralizaria o efeito oferta/procura, mas como grande parte foi conjugada preservou a taxa cambial mal formada e, portanto, distorcida com suas intervenções neutras.

 Os bancos continuam mantendo posições vendidas desde dezembro/2018 da ordem de US$ 24,0 Bi e só dispõe de linhas de financiamentos concedidas pelo BC de US$ 8,2 Bi, o que os leva a demandar linhas de banqueiros estrangeiros para lastro do posicionamento vendido.

O país vive um momento único com juro baixo e inflação baixa e isto afastou os investidores estrangeiros detentores de recursos especulativos, que, em grande parte, deixaram o nosso mercado financeiro e com isto provocaram o déficit liquido negativo do fluxo cambial, e, não houve a transição imediata com a chegada de recursos não especulativos atraídos pela melhora das perspectivas econômicas do Brasil e por seus programas de privatização, que foram retardados pela demora na Reforma da Previdência e nos programas de privatizações.

 Mas não só isto, as exportações brasileiras caíram significativamente algo como menos US$ 24,0 Bi em relação a 2018 e as importações se mantiveram estáveis, além do desapontamento do fluxo com o leilão do pré-sal.

Enfim, há necessidade do BC atuar objetivamente fornecendo liquidez e não administrando a formação da taxa cambial, mas a conduzindo a eliminar a disfuncionalidade (especulação mesmo) que a conduziu a preço incompatível com o “status quo” do país no segmento cambial que é de absoluta tranquilidade, sem nenhum risco por menor que seja de crise cambial.

E isto, como há uma notória distorção na formação do preço, não é possível continuar a ser corrigida com intervenção com estratégia de sustentar a neutralidade, mas tem que atingir o cerne do problema com oferta de dólares à vista e/ou incrementando o montante de linhas de financiamento em moeda estrangeira com recompra.

Esta é a sinalização clara presente, havendo em contrapartida um desinteresse crescente por ofertas conjugadas.

Ação direta, objetiva, pontual para reconduzir o curso do mercado à normalidade e compatibilidade com o momento do Brasil que é sobejamente melhor do que meses atrás e tem perspectivas seguras de retomada da atividade econômica.

Leilões à vista de forma contundente nada mais será do que ação profilática temporária, até que o fluxo cambial seja retomado positivo e que se prestará também para afastar os “ruídos que ensejam a enganosa percepção de que o país esteja com uma crise cambial”.

A ideia posta pelo Ministro Guedes de que o dólar ganhou um novo patamar é muito teórica, pois novo patamar não pode ser compreendido como exacerbado, visto que será inevitável o impacto inflacionário nos preços relativos da economia e os efeitos em cadeia conspirando contra os avanços alcançados até o momento.

Hoje é dia da Ptax de final do mês e por isso movimentos voláteis poderão ocorrer, mas não cabe intervenção do BC.


Sidnei Moura Nehme
Economista e Diretor Executivo da NGO

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