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Câmbio: É preciso reconhecer que causas internas pesam mais

É costume disseminado nas análises abordando o câmbio atribuir-se a alguma ou algumas causas externas as variações no comportamento da moeda americana no nosso mercado, sugerindo a nossa moeda, o real, uma importância maior do que a que efetivamente detém no mercado global, onde sequer é uma moeda conversível.

Nem mesmo o preço que lhe é atribuído frente à moeda americana tem boa simetria com a nossa realidade macroeconômica, já que não flutua da forma que deveria por ter contida a sua variação por intervenções expressivas do BC na formação de sua tendência, tornando-o parte relevante da nossa política monetária ao agregá-lo ao juro para combater as pressões inflacionárias.

Para mantê-la nos parâmetros atuais o BC tem uma intervenção “em ser” no mercado futuro da ordem de US$ 90,0 Bi e mais US$ 18,0 Bi representados pelas posições vendidas dos bancos gerando liquidez no mercado à vista, aquele que demanda divisa efetiva, que representa pouco menos do que 5% das reservas cambiais brasileiras.

É uma magnânima intervenção, num ambiente que sugere que os fluxos cambiais ganhem intensidade negativa pelo menos no curto prazo.

O real é desde muito uma moeda própria para especulação e não para reserva de valor, assim afora a intervenção do BC na formação do seu preço frente ao dólar, ainda ocorrem outros impactos decorrentes de movimentos especulativos nos mercados derivativos e também por fluxos cambiais atrelados também a fatores especulativos.

Esta intervenção sistêmica administrando a formação do preço, provavelmente, tem sido um dos grandes empecilhos para que se desenvolva um mercado de Forex envolvendo o real, trajeto obrigatório para que se transforme em moeda conversível e busque o seu preço à mercado, que contudo o levaria a não permitir a intervenção cotidiana do BC na indução de sua formação.

Então a contumaz justificativa de aumento ou redução de aversão nos mercados externos e impactos no comportamento do preço da moeda americana no nosso mercado é sempre uma “meia verdade”, visto que há repercussões de situações externas, mas predominam em sua grande maioria razões internas.

Há uma fragilidade nos fundamentos que formam o preço da moeda americana no país, por isso ocorrem repercussões imediatas, como por exemplo, quando na semana passada os Estados Unidos anunciaram um crescimento do seu PIB de 4% anualizado. A reação imediata é que os recursos externos aqui alocados deixarão o país no curtíssimo prazo, sucumbindo rapidamente os instrumentos de intervenção do BC para conter o preço.

O levantamento apresentado pelo banco UBS de que as bolsas dos 5 emergentes considerados frágeis são as que mais se valorizaram como consequência dos fluxos especulativos direcionados para os mesmos face à mudança de expectativa em relação ao inicio da alta dos juros nos Estados Unidos, é uma demonstração de que atraímos recursos ao longo do 1º semestre pela oportunidade de ganhos rápidos, sejam na própria bolsa como indica o levantamento, seja no mercado de juros.

Este movimento pontual e oportuno dada às circunstâncias evitou que o fluxo cambial para o Brasil este ano já se configurasse negativo desde o inicio do ano, a despeito das antecipações ocorridas de captações externas por parte de empresas estabelecidas no Brasil.

O 2º semestre se configura bastante desafiador para as autoridades monetárias no que diz respeito a ações focando mitigar uma expansão mais agressiva da taxa cambial real versus dólar, já que a demanda tende a se acentuar a partir do mercado à vista, o que implicará em necessidade de oferta de divisas efetivas.

Todo o cenário prospectivo para os fluxos no 2º semestre sugerem expansão das saídas de recursos estrangeiros do país e retração dos ingressos, o que tornará o fluxo cambial ao longo deste período negativo e em continua expansão, fato que exercerá pressão de apreciação da moeda americana.

Os capitais especulativos tendem a retirada do país por razões prudenciais, não em função deste ou daquele candidato estar liderando pesquisas, mas por não conviverem bem com ambientes com incertezas. Então, o beneficio que proporcionaram ao longo do 1º semestre quando ingressaram, deve agora ser revertido causando impactos na formação do preço na saída.

Se os bancos continuarem sendo os geradores da liquidez através o aumento de suas posições vendidas, lastreadas em linhas de financiamentos externas e/ou do BC com base nas reservas cambiais brasileiras, o endividamento de curto prazo dos bancos, já em torno de US$ 18,0 Bi, dado o montante das posições vendidas atuais, tenderá a se elevar e não se sabe ainda se isto os deixará em posição de desconforto, em especial pelo fato das perspectivas de fluxos cambiais para o Brasil não sugerirem possibilidade de cobertura imediata. Neste caso, além de eventual fornecimento de linhas de financiamentos em moedas estrangeiras, o BC deverá manter a oferta de “swaps cambiais” para que os bancos protejam a expansão de suas posições vendidas, mas não rigorosamente precisará elevar o montante da intervenção atual, pois os capitais retirantes liberam demanda por “hedge”.

Entretanto, se o BC decidir ser o gerador direto da liquidez mediante leilões de vendas de divisas ao mercado à vista, poderá certamente reduzir a oferta de “swaps cambiais”.

Por ora, o BC está delineando para este mês de agosto a rolagem de US$ 8,0 Bi da posição vincenda de pouco mais de US$ 10,0 Bi de swaps cambiais, através a oferta diária de 8.000 contratos, mantendo, contudo, a oferta de 4.000 contratos novos de swaps cambiais. Comportamento absolutamente normal, já que na somatória de ambas as ofertas ultrapassa algo com US$ 2,0 Bi da posição vincenda, o que nos parece já estratégia para financiar a expansão das posições vendidas por parte dos bancos no mês.

Todavia, no nosso modo de observar o mercado, entendemos que neste mês se finaliza o período de baixa volatilidade, passando a prevalecer o viés de alta com volatilidade na formação do preço da moeda americana.

Os fatores que impactam efetivamente sobre a formação do preço da moeda americana tem preponderantemente influência de fatores internos do país como fluxos cambiais e eficácia dos instrumentos de controle do preço utilizados pelo BC, por isso é necessário que avaliemos sempre e prioritariamente nosso “status quo” antes de as atribuirmos a situações externas.

É o Brasil que tem baixo crescimento, inflação alta, política fiscal comprometida, baixa capacidade exportadora, carga tributária elevada, baixo nível de investimentos, infraestrutura deficiente, e, que atrai capitais especulativos devido ao juro elevado que proporciona e oportunidades de ganhos rápidos na Bovespa como ocorreu no 1º semestre, nada produzindo e só retirando do país a rentabilidade.

Os capitais externos buscam investimentos em conta capital cada vez maior em países com perspectivas favoráveis e os capitais especulativos buscam rentabilidade rápida em países que fazem desta a razão de sua atratividade.

Portanto, quem cria a atração ou a aversão são os próprios países, por isso entendemos que precisamos considerar o nosso “status quo” quando procuramos causas e não simplesmente atribuir ao mercado externo.

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