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Câmbio: BC não precisa fazer de “tudo”, mas pontualmente o fundamental!

O Brasil tem um problema de queda acentuada de fluxo cambial e há inúmeras causas, porém fundamentalmente o fluxo de divisas para o mercado à vista tornou-se substantivamente cadente.

Números recentes do BC confirmaram em dados a percepção que já era consensual, mudou o contexto do país com a perda de atratividade em consequência de sua economia com fraca atividade e para o seu mercado financeiro, que a partir do estreitamento do juro interno com o externo, deixou de ser o oásis para os capitais estrangeiros especulativos ou não, perdeu fluxo e, ao mesmo tempo, desestimulou as rolagens de passivos em moeda estrangeira conduzindo-os a liquidação com o exterior e novação no mercado interno.

Por outro lado, houve fragilização também do desempenho das exportações brasileiras ao longo dos últimos 12 meses.

Simples assim, e, portanto, o BC não precisa enunciar parte do problema e ser mais discreto em outros pontos relevantes e, também, não precisa, antes que se demonstre ineficaz, atuar em todas as possibilidades de intervenção do mercado de câmbio, quando pontualmente o problema é falta de fluxo cambial no mercado à vista.

Simples assim, então a intervenção deveria ser tão somente com oferta de liquidez no mercado a vista com oferta de divisas oriundas das reservas cambiais, equacionando o desequilíbrio momentâneo para a normalidade do funcionamento do mercado, afinal, cabe ao BC prover de liquidez ou absorver o excedente do mercado, contraindo ou expandindo as reservas cambiais.

Sem maiores delongas o BC deveria ser pontual sobre a causa claramente identificada.

Ao optar por promover a oferta de liquidez no mercado à vista combinando com oferta de swaps cambiais reversos, esta operação do mercado futuro, impacta dando sustentação ao preço da moeda americana, visto que com a iniciativa no mercado a vista corrige a deficiência atual e deprime a pressão altista sobre o preço consequente da queda do fluxo que se dispõe corrigir, mas com a segunda provoca a contração da oferta do derivativo que tem efeito de oferta de compra de dólar futuro e causa efeito inverso ancorando o preço da moeda americana, que não faz sentido, a menos que seja objetivo da autoridade monetária manter o preço do dólar elevado no nosso mercado.

É de amplo conhecimento que no Brasil é o mercado futuro que forma o preço da moeda americana e contamina o preço do mercado à vista.

Estaria a autoridade monetária buscando com o preço de a moeda americana elevado estimular a parcela da atividade econômica focada no comércio exterior, visto que o setor produtivo se mostra relutante no investimento para dinamizar a atividade interna face a elevada capacidade ociosa, grande desemprego com efeito na renda e no consumo?

A estratégia precisa ser tão somente “cirúrgica” focando problema em sí, não afetando as demais ações contumazes da autoridade no mercado como oferta de swaps cambiais tradicionais e leilão de linhas de financiamento em moeda estrangeira com recompra, que se seguiriam como rotina até que haja demanda por parte dos bancos.

Não se sabe bem qual a finalidade dos anúncios das ações novas, oferta de dólares a vista e de swaps cambiais reversos, enfatizando também intervenções contumazes já antigas, dando assim ênfase às múltiplas ações como forte intervenção, mas afinal com qual objetivo efetivo, já que nos parece excessiva na intervenção com swaps cambiais reversos?

O BC também se faz repetitivo ao enunciar que houve mudança de patamar e opção dos tomadores de recursos externos por demanda interna destes empréstimos no momento das rolagens, mas não dá ênfase ao fato de que o estreitamento do juro interno e externo, a despeito do risco CDS do Brasil estar excelente, tirou a atratividade do nosso mercado financeiro, seja para os fundos estrangeiros tradicionais visto que a rentabilidade brasileira perdeu destaque e que os fundos estrangeiros especulativos não têm mais condições de realizar operações de “carry trade” para canalizar recursos para o Brasil.

A percepção é de que este novo contexto, queda do fluxo cambial positivo, será duradouro além das melhores expectativas, pois a perda de atratividade do país para os fundos rentistas, especulativos ou não, deve perdurar por muito tempo já que a nossa inflação é cadente e há pressão para redução maior da taxa SELIC.

Então fica a questão que ainda não foi abordada de forma consistente, ou seja, ATÉ QUANDO O BC CONTINUARÁ OFERTANDO DÓLARES A VISTA NO MERCADO DE CÂMBIO?

O Boletim FOCUS já ajustou a projeção do preço do dólar para R$ 4,00 para o final do ano, o que nos parece coerente, mas sob o risco dos movimentos especulativos no mercado de derivativos implementados pelos estrangeiros, aqui e no exterior, que não direcionam recursos para o país, mas tem grande liberdade e segurança para especular sobre o real, visto que o país tem como lastro de segurança as volumosas reservas cambiais. E neste ponto, a intervenção do BC com oferta de swaps cambiais reversos acentua o fortalecimento do preço da moeda americana.

O viés do IPCA continua cadente refletindo a consequência direta da inércia da atividade econômica e a projeção para a SELIC foi otimizada para 4,75%, que pode conflitar com o curso do câmbio.

O embate entre China e USA, a despeito do flashs de eventuais melhoras, tende a se prolongar agora com sinais de que o Presidente Trump tenciona retirar os papéis de empresas chinesas das bolsas americanas e os reflexos que deverão surgir das perdas americanas no comércio exterior face ao dólar forte, o que deverá provocar maior pressão sobre o FED para reduzir a taxa de juro americana, mas que denota ter baixa probabilidade de mudança do cenário global, que deve perdurar defensivo.

Enfim, o Brasil tem reservas cambiais volumosas, mas tem no presente com perspectiva de alongamento no tempo problema relevante de fluxo cambial positivo, e isto requer intervenção do BC com clareza de propósitos, visto que dólar com preço elevado, mas com tendência volátil não favorece os negócios nem mesmo dos exportadores.


Sidnei Moura Nehme
Economista e Diretor Executivo da NGO

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