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Câmbio: 2º semestre tende a ter marcante queda de fluxo de recursos

O Banco Central do Brasil prorrogou o programa de oferta de liquidez diária no mercado futuro através contratos novos de “swaps cambiais”, com a alternativa adicional da rolagem das posições vincendas no seu todo ou em parte,  mantendo aberta a possibilidade de ofertar linhas de financiamentos ao bancos autorizados a operar em câmbio, mediante operações de venda  e compra conjugadas, visando gerar indiretamente liquidez no mercado à vista com recursos das reservas cambiais brasileiras, já tendo ofertado US$ 3,5 Bi não encaixado pelo mercado na última segunda feira, ao que se sabe não tomada por nenhum banco.

Estas ações pontuais deixam bastante evidente que a autoridade monetária deseja que tanto no mercado futuro quanto no mercado à vista não ocorram problemas de liquidez que possam vir a exercer pressão demasiada sobre a formação do preço da moeda americana.

O cenário que se projeta para este 2º semestre deve ser substantivamente diferente do que ocorreu no 1º semestre quando o país teve um fluxo cambial “adicional, fortuito e relevante” de capitais especulativos forjados a partir da montagem de operações de “carry trade” que migraram para o Brasil focando rentabilidade, valendo-se do fato do FED americano ter sinalizado que as mudanças da política americana envolvendo o juro seriam postergadas.

Não tivesse ocorrido este fato imprevisto “a priori”, o Brasil já estaria amargando expressivo nível de insuficiência de fluxo cambial, ampliando em muito o já relevante saldo negativo vindo do ano passado, já devido a insuficiência de fluxo cambial, da ordem de US$ 18,124 Bi.

Entretanto, a despeito do grande volume de ingresso de capitais especulativos e da antecipação de captações de recursos externos por empresas brasileiras por ser um ano eleitoral, os números do BC evidenciam que do total de ingressos financeiros até o último dia 27 atingiu US$ 245,794 Bi só restou no país inexpressivos US$ 638,0 M líquidos,  já que no mesmo período saíram do país US$ 245,155 Bi, envolvendo parcela substantiva  de recursos não especulativos.

Então, o que se espera agora no 2º semestre é uma queda expressiva de captações externas por empresas brasileiras,  ingressos de recursos estrangeiros direcionados para especulação e também para conta capital, tendo em vista que o país tem problemas de natureza econômica, baixo crescimento, política fiscal novamente comprometida, inflação alta, etc, e incertezas no campo político, mas em contraposição deve ocorrer saída expressiva dos recursos especulativos que adentraram e sempre tem curta permanência e não convivem bem com incertezas, afora as saídas normais de dividendos, lucros, etc, que vão provocar a intensificação de fluxo cambial negativo.

Eventual sinalização de mudança na política monetária americana pelo FED tornaria este quadro de saída de recursos mais traumática, mas, pelo menos por enquanto, nada induz a isto, nem mesmo o fato da ADP ter sinalizado melhora substantiva na geração de empregos nos Estados, que faz aumentar o foco sobre a divulgação do dado oficial que ocorrerá hoje pelo Departamento do Trabalho americano.

O fluxo cambial até o dia 27 último está negativo no mês em US$ 856,0 M, porém no ano ainda está positivo em US$ 3,172 Bi, sendo US$ 2,534 Bi  comercial e US$ 638,0 M financeiro. Os bancos estão com posições vendidas totais de US$ 15,198 Bi e o montante de linhas de financiamentos concedidas pelo BC atingem US$ 7,0 Bi.

O fluxo comercial positivo decorre das exportações das safras agrícolas, que não devem se sustentar no 2º semestre, e pelo recuo das importações, como reflexo da queda acentuada da atividade econômica no país.

As perspectivas para a balança comercial brasileira, a despeito da melhora pontual ocorrida em junho, não suscitam otimismo, sendo  grande a probabilidade de fechar no vermelho este ano, salvo se houver um recuo mais acentuado das importações.

A produção industrial brasileira registrou a maior queda do ano em maio, e tende a desempenho negativo no ano. A prorrogação dos benefícios fiscais concedidos pelo governo ao setor automotivo podem não incrementar a atividade do setor como esperado, parecendo mais que o setor enfrenta a exaustão da demanda do mercado interno, fato que também ocorre com outros bens duráveis que parecem já não responder sequer ao programa Minha Casa Melhor.

Há notórios indícios de que a matriz de crescimento do Brasil precisa ser drasticamente alterada.

O governo naturalmente tentará  monitorar o preço da moeda americana ao máximo fazendo-a coadjuvante no enfrentamento das pressões inflacionárias, mas certamente encontrará dificuldades para evitar a expansão da taxa até R$ 2,40 a R$ 2,50, pois com a pressão passando a predominar no mercado à vista num ambiente de fluxo cambial negativo fica bem mais difícil do que quando a pressão ocorre no mercado futuro pela busca de proteção, que é saciada com os “swaps cambiais”.

Entendemos que o BC/MF deveriam avaliar a possibilidade de reduzir mais uma vez o prazo  para os empréstimos externos ficarem isentos do IOF de 6%, quem sabe reduzindo o prazo de 180 dias para 90 dias, buscando com isto fomentar a tomada de recursos de curtíssimo prazo, já que os bancos locais poderão revelar alguma retração na concessão de crédito face ao momento eleitoral, e assim obter algum fluxo adicional de recursos externos.

Ainda há dúvidas sobre quem será o gerador de liquidez no mercado à vista.

 Os bancos precisam ter linhas de financiamento em moeda estrangeira e condições favoráveis para arbitragens de custos versus rentabilidade do cupom cambial para expandirem suas posições vendidas, e, também há o aspecto do volume de posições vendidas num ambiente que não sugere solução de mercado para a cobertura já que as perspectivas são de continuidade de fluxos negativos.

Em última instância, o BC terá que dar a liquidez diretamente vendendo dólares ao mercado à vista, mas esta é uma solução que pode motivar repercussões negativas sobre a moeda brasileira, com riscos de submetê-la a movimentos especulativos pela sinalização de fragilidade.

Muito tem se comentado sobre os ganhos do BC sobre o elevado estoque de contratos de “swaps cambiais” “em ser”, mas é preciso atentar que as perspectivas são de elevação do preço da moeda americana no 2º semestre, o que o coloca sob  risco de perdas.

O 2º semestre está só começando, mas as perspectivas para o mesmo nada têm de otimismo, em especial no setor cambial.

 

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