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Brasil: Sonhos e esperança irrealizáveis no curto/médio prazos

O Brasil vem se realimentando de sonhos e esperança forjada encima de perspectivas frágeis no curto e médio prazo, mas tudo leva a crer que, gradativamente, vá, a partir dos indicativos iniciais de 2016, revisando suas perspectivas que não são sombrias e nem ensejam otimismo, mas naturalmente, muito empenho na linha de superação gradual.

Não adianta desejar crescimento no atual ambiente ainda decadente da atividade econômica, sendo imperativo que ao invés de tentar ignorar os erros os reconheça e busque inicialmente conquistar a estabilidade, para depois ainda que lentamente almejar a retomada do crescimento.

O governo precisa ainda “cortar seus gastos de forma impiedosa”, aliviando seus dispêndios para objetivar o reequilíbrio fiscal de suas contas, pois preservando-se e buscando impor novos tributos provocará, certamente, intensificação do processo recessivo da economia, retardando o alcance do seu objetivo maior.

O setor produtivo permanece insensível aos clamores do governo e, certamente, será não responsivo a todas as medidas que venham a ser tomadas, merecendo destaque o fato das citações mais recentes sinalizar a retomada de ações antecedentes, atualmente, não mais cabíveis tendo em vista que a realidade é bastante diferente.

De nada valerá incentivos à construção civil num ambiente em que há necessidade de elevar-se o valor das prestações e ser requisitada a presença do setor bancário privado, mais rigoroso e seletivo, e em que a inadimplência é crescente e ocorre soberbo percentual de devolução de imóveis novos às construtoras. Na mesma linha, incentivos à indústria automobilística serão inócuos. E tudo o mais que ensejar estímulo ao consumo.

O país está em recessão, com perspectivas de forte aumento do desemprego, com seus setores produtivos vitais persistindo na fragilização, e o governo com recursos limitados, então buscar-se retomar a estratégia antecedente de estimular consumo com crédito, atualmente com custos aviltados, nos parece decisão fadada ao insucesso.

O sonho “acalentado” pelo governo é o de aprovar o retorno da CPMF para resolver seu problema fiscal, contudo, “a dose do remédio tende a se tornar veneno para a retomada da atividade econômica”, e será algo que, se conquistado, ensejará muitas concessões de natureza política aos congressistas, já que o governo carece de base sustentável estável. O fato poderá retardar mais ainda a retomada da estabilidade da atividade econômica, embora possa até resolver em parte o problema fiscal do governo.

As esperanças de que a inflação retornará a níveis mais confortáveis, que o país terá PIB positivo, etc…. parecem algo distante. A inflação tem o seu núcleo indicando que continuará aquecida e é em grande parte inercial, deixando evidente que elevar a taxa SELIC poderá ser um erro, que ao final se prestará a remunerar mais o mercado financeiro e onerar a conta do Tesouro Nacional e a política fiscal, sem efeitos de contenção das pressões inflacionárias, já que inexiste demanda aquecida. Quanto ao PIB, o contexto atual não enseja crescimento do país, mais uma vez, neste ano.

Há inúmeros vetores contrários aos interesses do Brasil, interna e externamente, e as possibilidades de superação são bastante limitadas. É compreensível que o governo mantenha um discurso otimista, num ambiente extremamente negativo, é o seu papel, mas devemos observar, com sérias restrições, as projeções que vem sendo apresentadas como medianas do mercado financeiro pelo Boletim FOCUS, bastante descasadas nos seus principais indicadores das perspectivas, mas enfim, não acontece nada, como já visto, se ao final se constatar a dimensão dos erros cometidos.

Mas, o nosso foco principal é o setor externo.

E neste quesito o Brasil deverá experimentar dificuldades crescentes que impactarão seguramente na formação do preço da moeda americana.

Temos reservas cambiais nominais de US$ 369,0 Bi, com contratos de swaps cambiais ancorados em sua credibilidade a este montante da ordem de US$ 110,0 Bi e mais posições vendidas dos bancos, que em nome do BC geram liquidez a vista no mercado de câmbio, de US$ 21,0 Bi, das quais US$ 12,0 Bi lastreados em financiamentos concedidos pelo próprio BC.

Em termos líquidos, afinal o montante de contratos de swaps reflete exposições em moeda estrangeira passiveis de convergirem para o mercado a vista como saída de recursos, temos então algo entre US$ 238,0 Bi a US$ 247,0 Bi, com um cenário prospectivo que não sugere otimismos quanto a fluxos cambiais positivos.

O país está sob a mira das agências de rating e poderá sofrer novas revisões de suas notas e então tornar obrigatória a saída de recursos alocados no país por fundos que tem restrições a países não grau de investimento, e, além disto, poderá ocorrer saída motivada pelo aumento gradual do juro americano ou mesmo pela intensificação do conceito de risco do Brasil, que já vem sendo sinalizado pelo aumento de percepção de risco de investir em bônus do país, como destacou em sua edição de ontem o jornal Valor Econômico, apontando que os juros do Global 2025, papel negociado no mercado secundário, saltaram de 12,30% aa em 2015 para 16,11% em 2016, alta de 3,81% frente, por exemplo, aos papéis mexicanos de igual característica que subiram 0,39% ou peruanos que subiram 0,40%.

Tudo sugere que a tendência a rolar linhas obtidas no exterior tende a recrudescer e os custos a serem aviltados além do impacto sobre a disponibilidade ofertada. Então, as saídas deverão superar os ingressos, impactando no fluxo.

O jornal Valor Econômico, em sua edição de ontem, também destacou estudo feito pela LCA Consultores concluindo que o custo relativo do investimento no país voltou a subir a partir de 2014, afirmando que a FBCF (formação bruta de capital fixo) ficou 7,9% mais cara, enquanto a inflação foi de 6,9%, salientando que essas variações, chamadas de “deflatores implícitos”, são dadas pela razão entre o crescimento nominal e real do PIB.

A variação cambial de 50% ocorrida no ano passado e a nossa perspectiva de mais 25% este ano são pontos relevantes a ser considerados pelos investidores, pois o risco cambial nesta dimensão não é fácil de obter hedge ou terá um custo elevado.

Pesquisa recentíssima da Bloomberg colocou o Brasil na penúltima posição das economias por suas perspectivas, ficando somente à frente da insolvente Venezuela e já atrás da Grécia, e estas amostragens não deixam de ser consideradas pelos investidores.

No quesito balança comercial, onde as projeções de saldo parecem exacerbadas, continuamos severamente dependentes da China, e esta é sempre uma “caixa preta”, mas que denota ao desvalorizar sua moeda, o yuan, pretende incrementar suas exportações e conter as importações, visto que vem perdendo dinamismo em sua economia, embora a “produção de dados” apresente volatilidade e acabe causando efeito direto nos mercados globais.

Em suma, o Brasil é no momento um país com baixa atratividade aos investidores estrangeiros em conta capital, e, pode também tornar-se desinteressante aos investidores em renda fixa e variável pelo aumento do conceito risco e não ter o retumbante saldo comercial que projeta para sua balança. Além disto, há ainda uma gama substantiva em termos de incertezas presentes na economia internas e como consequência do exterior.

À margem disto tudo, há, ainda, a questão política bastante instável e de dificílimo alinhamento de interesses, que contribui para travar relativamente eventuais avanços aventados.

É preciso então que ocorra uma revisão nas perspectivas que vem sendo sonhadas e depositárias de esperanças, impondo-se mais realismo e com a convicção de que é impositivo o reconhecimento dos erros, sem o que não será possível alterar a direção.

Nossa projeção continua sendo de um ano difícil no setor externo, razão pela qual temos ratificado a nossa projeção do preço de R$ 5,00 para a moeda americana ao final do ano.

É imperativo que o governo mude sua dinâmica, devagar, pois não pode ser rápida, porque a direção neste momento é mais importante que a velocidade.

 

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