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Brasil: Cresce a convicção fundamentada de 2015 pior do que 2014

Já foi objeto de nossas considerações que a volatilidade que se verifica em alguns ativos, principalmente o dólar, decorre do confronto de avaliação do Brasil real e seus enormes desafios e o Brasil imaginário, aquele que o Ministro Levy se propôs a restabelecer a partir de enormes atitudes estratégicas de política econômica.

Mas entre o anseio do Ministro recebido com otimismo pelo mercado financeiro como prova de confiança e a efetiva possibilidade de se reconstruir contextos importantes do Brasil há uma enorme dificuldade que vem se tornando fator de incerteza e aumento da desconfiança de que sejam realizáveis, principalmente depois que dados de situação do Tesouro Nacional da era Mantega/Augustin foram revelados muito mais comprometedores do que estimados, fazendo aumentar a convicção de que 2015 já tende, embora estejamos ao início do ano, a ser pior do que 2014.

É muita coisa a ser corrigida num curto espaço de 1 ano e a grande maioria dos ajustes e medidas a serem adotadas são conflitantes entre sí, provocando choques em sentido oposto uma às outras.

Alexandre Tombini, Presidente do BC, afirmou em Istambul que prevê períodos de volatilidade no mercado, porém utiliza como fundamento fatores e crises externas e considerações em relação aos “QE´s” americano, europeu, etc., e naturalmente não destacou entre os parceiros do G-20 os inúmeros problemas brasileiros, que na realidade são efetivamente o maior problema para o país.

O contexto brasileiro vem demonstrando que havia uma deterioração generalizada do país não bem quantificada e que vem se revelando maior.

A despeito de todo empenho que realizar o Ministro Levy e seus pares, será muito difícil o país alcançar superávit primário de 1,2% do PIB este ano, naturalmente sem truques, e a inflação na meta é uma aspiração que cada vez fica mais distante e não parece crível que ocorra neste mandato da Presidente Dilma.

Na realidade o Brasil sofrerá efeitos voláteis, mas as causas maiores estão aqui mesmo.

Afinal pagamos o maior juro mundial num momento em que prevalece no mercado global a pratica de juro negativo por grande parte dos países que visam a retomada da atividade econômica.

O “status quo” do Brasil não atrai investimentos externos de qualidade, os focados na conta de capital, e encontra dificuldades para atrair a farta liquidez internacional através ingressos especulativos forjados a partir de montagens de “carry trade”, visto que a incerteza em torno do comportamento do preço da moeda estrangeira no nosso mercado representa um fator de risco.

Convivemos com as incertezas sobre quando o FED americano alterará sua politica monetária e os efeitos de repercussão no Brasil motivando a saída de recursos.

O Ministro Levy deu uma mensagem cifrada de que o governo deseja um preço de dólar mais elevado, naturalmente porque tem a correta percepção de que o país tem problemas no setor externo e não está atrativo ao capital estrangeiro, por isso precisa ser atrativo pelo menos para o capital especulativo para dar um alivio.

O mercado reagiu ainda que de forma reticente e colocou o preço da moeda americana em linha para R$ 2,80, que foi nossa projeção logo ao inicio de janeiro, para o final do 1º trimestre, fechando o ano em R$ 3,20. Preços que entendemos em linha com a realidade do país que a despeito de ter reservas efetivas liquidas em torno de US$ 350,0 Bi, já deduzido o montante que vem sendo carregado pelos bancos em suas posições vendidas financiando a necessidade de financiamento externo do país. Na margem, há um estoque de “swaps cambiais” de US$ 120,0 Bi que se presta a “hedge” para suprir a moeda nacional da credibilidade perdida, cuja aceitabilidade decorre do fato do país ter as reservas.

Como já dissemos, o preço do dólar mais elevado encarece as importações beneficiando a indústria nacional na reconquista do mercado interno e aumentando a competitividade dos produtos exportáveis. Mas a indústria nacional parece pouca disposta a investir como seria lógico, já que foi extremamente desprestigiada na última década e parece que agora quer ver para crer.

A onda de ajustes e aumentos de tributos muito acima do previsto pelo governo ao inicio, desencadearam um processo de remarcação generalizada de preços da economia, não se limitando somente aos preços relativos.

O IPCA de janeiro apontando 1,24% deu evidência a consequência, já que as causas são conhecidas. Estourou o teto superior da meta nos 12 últimos meses acumulando 7,14%.

O dólar a R$ 2,80 colocará mais pressão inflacionária na economia, mas é algo absolutamente necessário o ajuste e o governo passar para o mercado que tem este objetivo, pois se não o fizer não o tornará crível para os setores produtivos investirem focando competitividade e produtividade.

Todo este contexto de ajustes necessários tem pontos conflitantes como aumento do dólar e pressão inflacionária, que poderá determinar elevações maiores da taxa SELIC.

As projeções para crescimento já passaram para o campo negativo oscilando de queda do PIB até o extremo de 2%, e isto inevitavelmente impactará no emprego e na renda.

O grau de complexidade no processo de reconstrução econômica do país é enorme e tudo sugere que ocorrerão inúmeros “corners” pontuais, deixando evidente que nem tudo que está sendo objetivado é exequível.

O Boletim FOCUS, que expressa a mediana das projeções das instituições financeiras, parece estar gerando indicativos que estão atrás da curva. A inflação com o IPCA em 7,15% ao final do ano é modesto neste momento, o dólar a R$ 2,80 está distante da realidade, a taxa SELIC em 12,50% não está considerando o incremento da inflação, o PIB em zero já não reflete a grande maioria das projeções, a produção industrial em 0,44% é incerta pois não se sabe se a indústria reagirá com um preço mais elevado do dólar e o déficit em transações correntes em US$ 78,0 Bi está um pouco abaixo da tendência.

O fato é que o preço do dólar deve ser consolidado nesta fase a R$ 2,80 com viés de alta para o final do ano, ao mesmo tempo em que crescerão as incertezas que poderão trazer de volta, a despeito da competência do Ministro Levy e equipe, o pessimismo sugerindo o ano de 2015 pior do que 2014.

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