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Ata do COPOM “light” num ambiente de perspectivas preocupantes!

Incertezas e não poucas permaneceram sem ser abordadas como conteúdo da ata da mais recente reunião do COPOM, que consideramos com o teor “light” ante o momento, oportunidade em que foi definida a elevação da taxa SELIC de 10,50% para 10,75%, a autoridade monetária preferiu silenciar sobre as questões mais relevantes e preocupantes para o país em perspectiva para este ano de 2014.

Na realidade não há clareza para que se promova o entendimento de que o ciclo de aperto esteja perto e será de tão somente mais 0,25%, até porque reconhece que a inflação segue mostrando resistência e tem condicionalidades como taxa cambial em R$ 2,40 para o dólar; aumento de 4,5% para os preços administrados e zero de reajustes para os combustíveis.

Há certo alheamento quanto aos riscos presentes internamente para piora do cenário fiscal objetivado, após a primeira amostra reveladora no resultado das contas públicas no pior janeiro desde 2011, como a questão energética que poderá levar a deterioração o superávit fiscal, como salientou a jornalista Leandra Peres no jornal Valor, o Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS), que estimou as chuvas em março em 67% da média histórica, o que sugere que as térmicas ficarão ligadas o ano inteiro e as premissas com que o governo vinha trabalhando terão que ser revistas. Com a nova previsão de chuvas da ONS as chances de o gasto do governo chegar a R$ 18,0 Bi projetados pelo setor privado e inclusive superá-lo passaram a ser o cenário mais provável.

A Standard & Poor´s, agência de rating, já demonstrou interesse em saber como a conta do setor elétrico será pago. Isto deixa claro que o risco de rebaixamento de nota está presente e a vigilância tende a ser contínua.

A ata parece repercutir que o COPOM está muito focado com a nossa situação interna de controle da inflação, que sabidamente é preocupante, mas deixa de considerar os riscos de saída intensa de recursos estrangeiros alocados no país, seja pela retração da liquidez em decorrência do “tapering” do “QE3”, seja pelo refluxo de recursos para o mercado americano; seja pela saída em direção a melhores oportunidades, inclusive em países emergentes. E afora, este aspecto deixa de considerar, também, a retração de fluxos de IED´s e voláteis para o país, sem que seja reduzido o volume de déficit em transações correntes, que, ao que tudo indica, ficará em torno de US$ 80,0 Bi.

Há riscos preocupantes na trajetória brasileira em 2014 que, contudo, não estão sendo considerados, a começar pelo preço do dólar em R$ 2,40, algo como quase 10% abaixo da taxa presumível para o final do ano, visto que não há alternativa para não passarmos por intensificação de saída de recursos com forte volatilidade na formação do preço da moeda americana, para o que contribuirão as presumíveis intervenções do BC.

Os dados da balança comercial no 1º bimestre do ano são preocupantes e já acumulam saldo negativo de US$ 6,183 Bi, a despeito de ser um período que já envolve negociação de câmbio das safras agrícolas e que poderá aliviar um pouco este pesado déficit inicial, sem, contudo, alterar a tendência em perspectiva.

Os dados do fluxo cambial para o país, que tem tido insistentes declarações de intensificação de ingressos decorrente da nova visão dos estrangeiros a respeito do país, não confirmam a propagação que tem sido feita por vários canais.

Fevereiro com um saldo negativo no fluxo cambial de US$ 1,856 Bi (comercial – US$ 2,129 Bi e financeiro + US$ 272,0 M) consumiu o superávit de US$ 1,610 Bi obtido em janeiro, e o saldo final acumulado do bimestre em negativo de US$ 246,0 M.

Os bancos estão suportando com posições vendidas de US$ 18,597 Bi o total faltante de fluxo cambial positivo, dos quais os dados divulgados pelo BC indicam que US$ 14,526 Bi estão ancorados em linhas de financiamentos concedidas pelo BC, dentro da estratégia de evitar a venda direta ao mercado de câmbio à vista, como seria normal, e utilizando o “by pass” da liquidez por intermédio dos bancos. Contudo, como não se vê tendência a que os fluxos melhorem a ponto de cobrir estas posições vendidas dos bancos, muito pelo contrário, devem aumentar é bastante provável que o BC seja levado a realizar leilões de venda diretos ao mercado de câmbio à vista.

Temos destacado que o comportamento do preço do real está absolutamente assimétrico com a realidade presente, naturalmente com sinais de discreta especulação mesmo nos momentos em que o comportamento externo justificaria movimentos na mesma direção, e isto ficou muito evidente ontem quando, logo após os dados ruins do fluxo cambial e da balança comercial, reverteu o comportamento e passou a depreciar-se assumindo a linha da coerência.

Este movimento de artificialização do preço da moeda americana depreciado deixa um risco de movimentos abruptos no ajuste e ocorrência de volatilidade.

Os bancos ao propagarem o aumento da demanda por crédito de longo prazo à exportação denotam estar estocados de liquidez e desejosos de que apareçam interessados. Na realidade o que ocorreu de 2011 a 2013 não mudou muito. Em 2011 os pagamentos antecipados atingiram cifra em torno de US$ 55,0 Bi, e houve muita propagação de que empresas multinacionais estavam transferindo “caixa” para o Brasil para rentabilizá-las com os juros favoráveis, então o BC houve por bem colocar restrições de prazos, etc….. e em 2012 o volume caiu para US$ 40,0 Bi como consequência das medidas e em 2013 houve a liberação e o volume voltou a crescer atingindo US$ 62,460 Bi. Na realidade a expressão percentual do crescimento tem pouca relevância tendo em vista que parte de uma base anterior contingenciada.

Neste ano, janeiro foi relevante, mas fevereiro já foi discreto e nada indica que os exportadores estejam buscando este tipo de financiamento de forma acentuada neste momento, sendo a postura dos bancos puramente estratégica e mercadológica até por não encontrar respaldo nos números do BC.

Ocorre que há riscos efetivos de termos relevante depreciação do real, o que obriga os exportadores a realizar “hedge” destes recursos tomados como pagamentos antecipados de longo prazo, que acaba por onerar a operação por ficar no todo com custo elevado, a despeito das vantagens com isenções de IOF que esta captação proporciona, a engenharia envolvida não incentiva sua demanda.

Como normalmente os exportadores que utilizam este meio de financiamento são predominantemente multinacionais e detém grande “expertise” financeiro, sabem dos riscos presentes.

O setor externo e o preço do dólar como reflexo serão, certamente, os oponentes maiores da politica monetária do governo, pois provocarão impactos inflacionários pela pressão de demanda no mercado à vista e via produtos importados acabados e semiacabados que hoje ocupam parte relevante na produção do produto nacional.

Por isso, é pouco sustentável admitir-se que o aperto monetário está perto do fim, pois pressões inflacionárias reais em perspectiva não foram consideradas pelo COPOM, e inflação sensibiliza muito a população, em especial de baixa renda, em ano eleitoral.

As exportações poderão ganhar algum incentivo, porém os nossos produtos exportáveis utilizam bens importados que impactam repassando inflação do dólar nos seus preços, até mesmo os agrícolas que utilizam fertilizantes e similares.

Não há fundamentos presentes que possam dar sustentabilidade ao preço da moeda americana em torno de R$ 2,30, sendo que entendemos que o seu preço efetivo ante os fatos e números compilados pelo BC já deveria estar na faixa entre R$ 2,40 a R$ 2,50, fechando este trimestre em R$ 2,50, para propagar-se, com volatilidade, para R$ 2,60 ao final do ano e não os R$ 2,40 considerados pelo BC atualmente.

O “sonho do resgate da credibilidade” pelo Brasil é algo factível, porém dentro de um gradualismo que envolve o cumprimento (entrega efetiva) das metas definidas para o superávit fiscal e redução de gastos, e, mais melhora da educação, recuperação da infraestrutura deficiente, revisão da carga tributária extremamente elevada, reforma da legislação trabalhista que acabam por incentivar a informalidade, justiça cara e lenta, e protecionismo elevado que impede a integração internacional e maior competitividade. Como destacou Marcio Garcia, Ph D por Stanford e professor da PUC-Rio, em seu artigo no jornal Valor de ontem: Nada disso é novidade. Não há o que reclamar nem culpar crises internacionais. A culpa é nossa e cabe a nós mudar essa situação. Enquanto isso, há que suportar a ironia de estrangeiros, que voltam a perguntar se o Brasil continuará a ser sempre o país do futuro.

Certamente, a “fatura” que será cobrada do país será muito maior do que prometemos recentemente.

 

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