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Análise do Mercado – 13/07/2011

Hoje, os mercados globais ancorados no crescimento do PIB chinês de 9,5% anualizado no 2º semestre, após 9,7% no 1º trimestre, e, na simples menção por membros do FOMC americano de que o FED poderá reabrir maiores estímulos caso…

Hoje, os mercados globais ancorados no crescimento do PIB chinês de 9,5% anualizado no 2º semestre, após 9,7% no 1º trimestre, e, na simples menção por membros do FOMC americano de que o FED poderá reabrir maiores estímulos caso o crescimento do PIB continue lento e a perspectiva de que o juro continuará sem alterações por longo período, devem fomentar os combalidos pregões mundiais, embora a economia mundial continue “pisando sobre areia movediça” cada vez mais ampla e intensa.

O FED revisou para pior as perspectivas de desemprego e crescimento econômico para este ano e o impasse sobre o teto de endividamento continua no Congresso, mas ao mercado financeiro global basta um fato ou outro positivo a sua conveniência, mesmo com a predominância e até agravamento da economia real, para estimular-se e recompor, afastando-se do “mundo real”, mesmo que seja por um breve espaço de tempo.

Os Estados Unidos, segundo o FED, terão desempenho pior do seu PIB e piora do desemprego, enquanto a Europa e a sua euro-zona continuam não encontrando saídas para os problemas concretos presentes, estando na iminência de que novos e graves problemas surjam atingindo economias mais relevantes e que podem até colocar em risco a própria unidade da euro-zona em torno do Euro.

A China cresce ainda acima do que parece ser desejado por seu governo, ao mesmo tempo que o crédito teve expansão expressiva em junho da ordem de 15%. A inflação esta presente e forte, corroendo a renda da população que responde por 35% do seu PIB, um percentual ainda baixo para uma economia da dimensão da chinesa, que a torna dependente forte das vendas externas.

Preservar o poder aquisitivo da população e conquistar uma parcela maior de participação do seu consumo interno no PIB tornam-se tarefas mais difíceis num ambiente com inflação aquecida, razão pela qual há grande probabilidade do governo chinês realizar outra rodada de aperto monetário. Importante pontuar que, afora as elevações de depósitos compulsórios para os bancos, o governo chinês já elevou a taxa de juros por cinco vezes desde outubro ultimo.

Seguramente, “há perigos nas esquinas de todos os países e regiões”, por isso são temerosos os movimentos especulativos que se fomentam a partir de fatos pontuais dentro de um ambiente quase que generalizadamente negativo.

No Brasil, noticias de que os Estados Unidos possa restabelecer estímulos dado o crescimento lento criam a expectativa de que o fluxo de recursos estrangeiros se intensifique na busca de rentabilidade, já que a “guerra cambial”, jargão apontado pelo Ministro Mantega para a farta disponibilização de recursos, combinada com juros baixíssimos, pelos Estados Unidos que determina a depreciação do dólar, encontra por aqui, no Brasil, a “guerra cambial reversa” que o pais pratica, a partir do mesmo fundamento do Ministro Mantega, que com farta oferta de rentabilidade pelo expressivo juro praticado pelo país, atrai volumes consideráveis de investimentos especulativos e, segundo o governo, aprecia o real.

A questão da apreciação é muito técnica, muito distante do leigo entendimento do conceito “oferta e procura” a qual é simploriamente atribuída a causa da apreciação do real, se não vejamos:

O volume de captação externa no semestre atingiu US$ 30,6 Bi, porém não nos parece justo atribuir a este fato a forte apreciação do real que se verifica neste momento.

Uma análise mais detida dos números evidencia que no 1º trimestre ocorreu um fluxo cambial financeiro líquido positivo da ordem de US$ 31.3 Bi, sabidamente empréstimos externos especulativos de curto prazo, ingressados para “driblar” as medidas prudenciais do governo visando redução de liquidez e contenção do crédito com o objetivo de atingir as pressões inflacionárias advindas do consumo e que motivaram a elevação do IOF para 6% e extensão de incidência para os empréstimos até 2 anos.

Contudo, no 2º trimestre o fluxo cambial financeiro líquido foi negativo em todos os 3 meses, totalizando US$ 6,6 Bi, portanto, deixando evidente que há uma precipitação ao atribuir-se ao fluxo cambial financeiro a causa da apreciação do real até o extremo de R$ 1,55.

O que viabilizou a manutenção de saldo líquido positivo do fluxo cambial no 2º trimestre foram os saldos positivos comerciais de US 3,3 Bi em abril e US$ 7,2 Bi em maio, que contudo não se repetiram em junho, o que determinou que o fluxo cambial fosse negativo no mês passado.

Nos meses de abril e maio houve uma melhora de preço da moeda americana e prêmio no cupom cambial compensando a queda no fluxo financeiro e que ensejou oportunidade para os exportadores realizarem suas ofertas, respondendo, então, pelo fluxo cambial positivo naqueles meses.

Para verificarmos como a tese por si só não se sustenta, tivemos junho repetindo o fluxo cambial financeiro negativo, a exemplo de abril e maio, e, neste mês um fluxo cambial comercial positivo, o que determina que o mês de junho tenha um fluxo negativo total de US$ 2,5 Bi, afora o fato do BC ter retirado adicionais US$ 2,3 Bi com seus leilões de compra.

Toda a tese assentada sob o fundamento de que é o fluxo que esta determinando a apreciação do real não se sustenta, vira retórica viciada de quem não examina os números do fluxo, pois afinal como explicar que exatamente no mês em que consolida um fluxo negativo o preço da moeda americana sofre a sua maior depreciação?

Ao final de 2010 os bancos estavam “VENDIDOS” em US$ 16,7 Bi; o fluxo cambial total conhecido até 1º de julho foi de US$ 39,029 Bi (comercial e financeiro); o BC retirou com seus leilões de compra diários US$ 38,559 Bi e os bancos estão “VENDIDOS” em torno de US$ 15,0 Bi.

Como se verifica, o que permaneceu no mercado foram pouco menos de US$ 0,5 Bi até o dia 1º de julho, volume absolutamente inexpressivo em termos de impacto de oferta ao longo de meio ano.

Então, constata-se que a retórica do fluxo cambial ser responsável pela apreciação do real é infundada, representa mais um “sentimento” sem aferição da realidade, sendo o formador da taxa o estímulo as posições “vendidas” dos bancos no mercado físico a vista e o mercado de derivativos, que manipulam a formação do preço da moeda americana.

Na realidade, a análise dos números do fluxo cambial desmente por si só a tese de que é o fluxo cambial que determina a apreciação do real, aliás, como foi reconhecido recentemente pelo próprio BC, de forma implícita mas não declarada, ao adotar as medidas de redução das posições “vendidas” dos bancos de US$ 3,0 Bi para US$ 1,0 Bi, afora a relevante mudança que foi colocada em vigor, visto ter sido anunciada no ano passado, da mudança na formulação do cálculo da PTax, “atacando” frontalmente a manipulação até então praticada pelo mercado.

As duas medidas técnico operacionais focam diretamente atingir e limitar as posições “vendidas” dos bancos e, como consequência, atingem o mercado de derivativos.

É notório que o governo utiliza o real apreciado como coadjuvante da taxa de juro SELIC na estratégia de contenção das pressões inflacionárias, caso contrário precisaria elevar muito mais a taxa de juro, mas o que ocorreu foi uma profunda exacerbação das “apostas” no real com posicionamentos altamente especulativos, que passaram a representar riscos relevantes em caso de uma mudança brusca de perspectivas no cenário mundial, além de ter conduzido o preço da moeda americana a patamar excessivamente baixo, além do considerado suportável pelo governo.

Relevante destacar que um estudo de técnicos do FMI sugere que há mais instrumentos para o BC reduzir a especulação no Brasil, apontando taxação das margens, taxação e limitação das posições bruscas em derivativos, etc…

No fundo, conclui-se que é preciso utilizar-se inúmeros instrumentos, uns com impacto efetivo na formação do preço como os recentes envolvendo o cálculo da Ptax e redução das posições vendidas, outros defendendo o erário, no caso o BC, procurando limitar o ingresso e desta forma aliviando a sua necessidade de comprar mais para agregar divisas as nossas reservas cambiais, que representam elevado custo de carregamento, simplesmente pelas consequências de termos uma taxa SELIC absolutamente incompatível com um pais “investment grade”, 7ª economia mundial, risco-país baixo, etc.

Mas, voltando ao mercado de câmbio no seu dia a dia, os bancos, segundo estimativa do BC, tendem a reduzir suas posições “vendidas” de US$ 15,0 Bi para US$ 10,0 Bi até a próxima 6ª feira, e este é um desafio. A elevação da taxa do juro dólar do cupom cambial pode atrair os exportadores ao mercado, com novos negócios ou ingressando com os US$ 19,0 Bi que detém no exterior em exportações já liquidadas.

Dependendo das facilidades ou dificuldades que os bancos encontrem para este ajuste, a taxa cambial pode ou não ficar mais pressionada na medida em que se aproxime o final de semana.

 

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