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Análise do Mercado – 08/11/2010

É absolutamente fundamental que se entenda que o G-20 é um encontro de negócios e não de parceiros, portanto os interesses tendem a ser sempre assimétricos, e, dado ao “status quo” da economia mundial muito conflitante, chega a ser ilusório…

É absolutamente fundamental que se entenda que o G-20 é um encontro de negócios e não de parceiros, portanto os interesses tendem a ser sempre assimétricos, e, dado ao “status quo” da economia mundial muito conflitante, chega a ser ilusório imaginar-se que acordos prosperarão e que se encontrarão soluções além de manifestação pouco sincera de boas intenções.

Os Estados Unidos ainda têm a principal economia mundial, perdeu espaço e dinamismo e quer recuperá-los imediatamente, tem problemas extremamente relevantes na área do emprego que por tabela afeta o consumo interno, força motriz do seu PIB, e um governo que vem sofrendo perda expressiva de popularidade, frustrando o grande eleitorado que o elegeu como “esperança” de resgatar os principais problemas à época, que persistem e não respondem às “terapias” trilhionárias até agora implementadas.

Portanto, os Estados Unidos estão focados unicamente na solução de seus problemas e não o que acontece nos países no seu entorno, por isso não deverá ter sensibilidade alguma aos reclamos e postulações dos demais países.

A China já é grande demais para repetir o Japão no Acordo do Plaza. Maior vendedor e comprador do mundo e detentor de reservas cambiais, construídas em grande parte com a sua poupança de 45% do PIB, de US$ 2,6 Tri, e grande financiadora dos déficits dos denominados países desenvolvidos. Ficou grande demais para submeter-se a pressões do G-20 e ademais tem um regime político forte e focado nos interesses nacionais.

A Alemanha, líder da comunidade européia, acaba de registrar elevação no superávit comercial de setembro, graças ao aumento substantivo de 3% nas suas vendas externas com ajuste sazonal, enquanto as importações caíram 1,5%. Superávit comercial de Euros 15,6 Bi, após Euros 12,0 Bi em agosto. A dita “guerra cambial” está trazendo benefícios ou malefícios?

Neste confronto de pesos pesados a discussão é comercial, tendo como pano de fundo a utilização do preço da moeda como fator potencializador de vendas e inibidor de compras.

Portanto, tudo continua girando em torno daquele cenário que aventamos meses atrás quando não se cogitava ainda falar em “guerra cambial”, ou seja, “todos querem vender mais e comprar menos, e esta equação não fecha”.

Esta é uma discussão para as economias que são enormemente dependentes do mercado externo para a formação dos seus PIB´s.

O nosso Brasil varonil exportador de “commodities” , quase que um país retornando a condição neocolonial neste segmento, que tem um parque manufatureiro representando 1,8% no cenário mundial, 9º lugar, tendo perdido o 8º lugar para a Índia, e que em 1980 estava um pouquinho abaixo deste percentual acompanhado pela China, que hoje detém 16% no cenário mundial, esta “guerra cambial” não o afeta de forma considerável no comércio exterior.

Os problemas do Brasil são as consequências não comerciais deste contexto.

A moeda brasileira, o real, está apreciado e sempre foi um induzido a isto pelo governo para ser utilizada como antídoto a inflação. Como o BCB adquiriu todo o excedente do fluxo cambial não há repercussões na formação do preço. A influência ocorre pelo fato do BCB comprar além do fluxo cambial e assim instigar os bancos a formarem posições “vendidas” e a partir deste posicionamento atuarem apreciando o real, que os beneficia na estratégia decorrente que envolve captação de reais a custos irrisórios.

Os dólares que inundam o mercado global devido as emissões americanas e injetados como liquidez pelo governo americano no mercado americano e por este, na continuidade da indisposição de emprestar internamente ou mesmo da contração da propensão a assunção de dívidas pela sociedade americana, desviado para os mercados financeiros globais onde encontram rentabilidade de oportunidade acima dos padrões normais. O aumento de liquidez em dólares naturalmente fragiliza a moeda, ainda mais quando combinado com um juro absolutamente sem atrativo, e potencializa a capacidade exportadora americana.

O nosso problema efetivo é com o fluxo destes recursos em busca de rentabilidade e não rigorosamente com o aspecto de potencialização da capacidade de venda dos Estados Unidos.

Afinal, real apreciado e importações baratas fazem parte do receituário de política econômica brasileira, atendendo na contração da inflação e complementando com importações a produção nacional no atendimento ao mercado interno, evitando pressões inflacionárias.

O grande problema é que o país não tem poupança fiscal para aumentar as reservas cambiais indefinidamente, ainda pior quando se tratam de reservas de má qualidade. Acumula reservas, já que não tem outro jeito, aumentando Dívida Pública Interna. O custo de carregamento das nossas reservas cambiais construídas com Dívida Pública Interna foi de R$ 136,2 Bi de 2003-2009 enquanto o investimento do governo federal foi de R$ 132,7 Bi. Atualmente, com o acumulo de US$ 280,0 Bi, o custo aproxima-se de R$ 50,0 Bi anuais.

O nosso problema é doméstico, juro excessivo ofertado aos investidores e este é um quadro irreversível no curto e médio prazo no Brasil, pois será necessário uma mudança radical na condução da política fiscal no país.

Assim, não temos méritos para ir a Seul e apontar o “dedo em riste” para ninguém. A nossa receita é reduzir o juro e o país perderá a atração que desperta a este excesso de liquidez na economia mundial que não é investimento produtivo, mas tão somente especulativo.

O recurso que resta ao Brasil é o tributário e com isto reduzir indiretamente o benefício da taxa de juro. IOF e IR, este ainda não acionado, são recursos imediatos, já que “quarentena” sobre os capitais ingressados repercute muito mal no exterior e desgastaria o conceito do país.

E adicionalmente e de forma imediata, o BCB interromper seus leilões de compra diários no mercado à vista, levando os bancos a cobrir suas posições “vendidas” da ordem de US$ 12,0 Bi e a partir deste novo cenário, então só adquirir com os seus leilões montantes iguais ou menores do que o excedente diário do fluxo cambial.

É extremamente necessário que o governo tenha uma única política e uma única disposição, pois adotar medidas para sustentar o preço do dólar mantendo vigente práticas indutoras a apreciação do real gera um contraditório inexplicável e coloca duvidas sobre efetivos propósitos.

O mais é blá, blá, blá. FSB comprando tudo; Swaps cambias reversos; BCB continuando a comprar, etc. só resultará em maior apreciação do real, pois é muito improvável que o “poderio” do FSB seja maior do que o montante de linhas externas disponibilizadas para os bancos brasileiros para suportar suas posições “vendidas”. Desta forma, quanto mais o FSB comprar dos mercados, maiores serão as posições “vendidas” dos bancos no mercado à vista e maior a apreciação do real.

Por tudo isto, nos causa extrema satisfação ler declarações de Luciano Coutinho, candidatíssimo a Ministro da Fazenda, defendendo ajuste fiscal para reduzir juros. Este é o caminho para termos o dólar com um preço de equilíbrio, sem manipulações e maquiagens, consequentes da mistura de política monetária com política cambial com política fiscal, para nos defendermos das nossas fragilidades.

 

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