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Ambiente cambial evidencia folga. Há um movimento especulativo errático presente

Nossa percepção é de que ocorre um movimento especulativo baseado no “vício sistêmico” de que o país toda vez que se vê num quadro com algumas perturbações em sua economia sinaliza as tensões em torno do fato com a exacerbação do preço da moeda americana, sensor mais rápido e indicativo do grau de preocupações.

Assim ocorre nos países ditos emergentes, mas o fato concreto é que atualmente há muitas diferenças entre os “status quo” destes países e assim, cada qual é um caso, até porque vivem momentos diferentes e com fatores bastante diversos afetando suas perspectivas.

O Brasil sabidamente atravessa um momento bastante desfavorável no contexto econômico-político-jurídico, com enorme crise fiscal, e com grande dificuldade de projetar cenários prospectivos críveis e fundamentados, estando na iminência de realização de eleições relativas à sucessão presidencial, que ainda a partir dos postulantes não agregou confiança de que o país poderá enfrentar com resolução toda a complexa gama de fatores adverso presentes.

Este é o quadro que desalenta o país e o deixa com um enorme espectro de vetores indefinidos e que acarretam dúvidas e incertezas relevantes.

Contudo, contrariamente a tudo isto, o país como reiteradamente destacado, tem uma situação absolutamente folgada na questão cambial, que não respalda movimentos especulativos utilizando a moeda americana como sensor maior das tensões presentes.

Há quem compare o momento atual com o vivido em 2002, quando é absolutamente diferente, rigorosamente inverso no seu “status quo” na questão cambial e na questão econômica.

O país tem uma robusta situação favorável no quadro cambial, dispõe de reservas cambiais substantivas que viabilizam a utilização pelo BC de instrumentos operacionais apropriados que nelas se lastreiam, sem, contudo, diminuí-las, e proporcionando liquidez para demanda por proteção cambial e/ou por liquidez no mercado à vista.

Isto ficou, mais uma vez, evidenciado pelos dados divulgados pelo BC em que destaca que o déficit em transações correntes está em faixa abaixo de 0,8% do PIB, absolutamente tranquila se atentarmos para o fato da Turquia registrar algo como 5,4%. O nível de IDP está cadente para o Brasil, provavelmente reflexo das decisões do governo Trump com a redução de tributos para atrair investidores, registrando atualmente 3,25% do PIB ante 4,3% um ano atrás. Contudo, o IDP ainda é suficiente para financiar o déficit externo, mas inegavelmente vem caindo.

Os países emergentes e o Brasil em especial precisarão avaliar mais detidamente os impactos da redução do imposto corporativo promovida pelo governo Trump e que já dá evidências de impacto reduzindo o fluxo global de IDP, que afeta o Brasil com a redução da entrada de investimentos de longo prazo. As projeções do Brasil para IDP foram postas como de US$ 80,0 Bi, mas muito provavelmente ficarão entre US$ 65,0 Bi e US$ 70,0 Bi, na melhor hipótese.

Já é possível identificar que o fluxo de aplicações em carteira sofrem reflexos da proximidade da disputa eleitoral, registraram fluxo positivo líquido de US$ 8,2 Bi de investimentos estrangeiros e já registram fluxo negativo líquido de US$ 7,0 Bi em agosto, fato que foi pontuado no fluxo cambial divulgado pelo BC.

O movimento dos investidores estrangeiros no fluxo de aplicações em carteira iniciando a saída a partir de agosto está em linha com as expectativas, e, na mesma linha deveria estar ocorrendo na Bovespa.

Causa estranheza, a despeito da maioria dos investidores estrangeiros estarem protegidos por “hedge”, que a Bovespa opere mostrando resistência e até altas expressivas em alguns momentos.

Afinal, se o que está fortemente comprometida é a expectativa sobre a economia e a capacidade dos candidatos postulantes à sucessão presidencial ter programas que promovam a reversão em pelo menos 2 anos, o que fundamenta os fundamentos dos preços dos papéis acionários da Bovespa?

Por isso, temos salientado que o foco especulativo presente está errático quando a pressão ocorre sobre o preço da moeda americana, pois na realidade deveria estar provocando um “sell off” na Bovespa.

Acreditamos que o movimento especulativo sobre o preço da moeda americana no mercado brasileiro não se sustente por absoluta falta de fundamentos, mas, por outro lado, entendemos absolutamente factível que tenhamos um movimento acentuado de saída dos estrangeiros da Bovespa, seguindo o mesmo comportamento já sinalizado nas aplicações em carteira.


Sidnei Moura Nehme
Economista e Diretor Executivo da NGO

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