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Otimismo é indutor do mercado, mas importante não perder a sensatez, a realidade

O mundo como um todo se vê melhor, mas na realidade os sinais de recuperação são díspares entre as nações e isto provoca uma irradiação que pode induzir alguns países a considerar de forma exagerada sinais primários que surgem nas suas economias.

A percepção que se tem é que os Estados Unidos estão recuperando sua grandeza econômica, mas na realidade ainda têm alguns flancos que não se reabilitaram bem, por isso nos parece enganoso quando se considera que o dólar está perdendo valor internacionalmente.

Nosso entendimento é que o governo americano/FED estão usando a estratégia de com o preço de sua moeda fragilizado incentivar a atividade econômica do país focando o mercado exportador internacional, ao mesmo tempo que protege sua atividade industrial da concorrência dos importados. 

Algo semelhante ao que o Ministro Guedes tentou no Brasil ao início do governo, quando enfaticamente fomentou a ideia do “câmbio alto e juro baixo” esperando reação do nosso parque industrial e comercial focando elevar as transações de exportações e inibindo as importações, que afinal não obteve a reação esperada, havendo tão somente benefícios ao setor de commodities que tinha preço aquecido no mercado internacional e realizou exuberantes ganhos com o câmbio alto. Os demais setores repercutiram discretamente sem a empolgação aguardada.

O juro baixo que visava estímulo aos investimentos nacionais não logrou o sucesso esperado e acabou ancorando o preço alto do dólar e a volatilidade e fomentando a excepcional inflação dos bens de primeira necessidade exportáveis pelo rebote ao mercado interno corroendo a renda dos trabalhadores de forma relevante e indireta, sem que este fato fosse bem capturado pelo IPCA, e mais grave estes produtos marcados a preço de mercado não retroagiram seus preços, como deveria acontecer, ao momento em que o dólar está tendo depreciação do preço no nosso mercado em torno de 15%, assim a inflação fica e agora deveria deflacionar, mas não acontece, o governo precisa destacar este fato em suas abordagens e induzir à correção.

Bastou ajustar o juro à realidade brasileira, e serão necessárias novas elevações, para o dólar perder suporte e ajustar seu preço à realidade brasileira e poderá retroagir até R$ 4,50/4,60 se a SELIC for elevada e se colocar acima da inflação projetada que deve ir muito além dos 5,44% do FOCUS, com baixa sensibilidade se o dólar eventualmente sofrer apreciação no mercado internacional devido pressões inflacionárias nos Estados Unidos que eleve o juro dos T-Bills americanos.

E o Brasil neste contexto geral?

Apresentou um crescimento do PIB no 1º trimestre de 1,2% e causou enormes ruídos, em especial inflados pelo governo, mas pode ter sido um sinal enganoso fomentado pela reposição de estoques numa economia que vinha debilitada. Não acreditamos sustentáveis as projeções para o ano que o colocam em 5%.

Mas o fato logo foi exacerbado e as projeções para o PIB deste ano vêm sendo elevadas, a quem diga que já voltamos ao momento pré-pandemia, o que efetivamente não é a realidade, ainda estamos distantes embora não tivéssemos momento de exuberância naquela oportunidade. 

A BOVESPA está em alta, a despeito da ausência dos investidores estrangeiros de peso visto que não há repercussão no fluxo cambial que está negativo no segmento financeiro, mas a BOVESPA não é representativa da nossa economia, pois está fortemente ancorada em papéis de commodities que refletem o mercado internacional e um ou outro papel interno pontualmente, como varejo estimulado pelos programas assistenciais do governo e o setor financeiro, que é lucro certo embora tenha ganhado menos em 2020. O governo, até o Presidente Bolsonaro repercutiu a alta da BOVESPA, mas este é um indicativo enganoso, está descolado da realidade brasileira.

O desemprego permanece extremamente elevado e mesmo com eventual retomada da atividade econômica será muito difícil a abertura de vagas para tantos desempregados e desalentados, visto que, certamente teremos outro perfil de demanda de mão de obra, o home office deverá ocupar boa parte da atividade no futuro.

A pobreza cresceu no país de forma expressiva.

O clima político está extremamente arraigado, já com foco na sucessão presidencial, e resulta em discussões hilárias entre membros importantes do governo, que denigrem a imagem pública, mas as tensões crescem e ouvimos coisas bizarras. Este fato ocupa o lugar de fatores mais importantes que deveriam estar em pauta mais evidenciada, como as reformas administrativa e fiscal, que divagam pelas mesas do Congresso.

A pandemia do coronavírus, já um pouco ignorada em sua dimensão pelo hábito da convivência, está tanto ou mais presente do que meses atrás, já ocupando grande parte das acomodações hospitalares tendendo ao agravamento, e muito se fala das vacinas, mas a realidade é que temos somente 11% da população imunizada com a 2ª dose e um desrespeito público notório pela prevenção por parte da população. A atividade econômica repercutirá este reaquecimento da pandemia, por inevitável.

O país tem um cenário prospectivo que indica uma provável crise hídrica, fato que seria extremamente negativo, embora a ONS diga que estamos garantidos, mas as usinas térmicas já estão ligadas e os preços serão aviltados impactando na inflação e no bolso dos consumidores.

Este é um fato que, inquestionavelmente, inibe e inibirá a retomada mais efetiva da atividade econômica e a geração de empregos, e, de certa forma, vem sendo subestimada pelo governo e pela população. 

Em realidade após a absoluta desorganização da atividade econômica causada pela pandemia do coronavírus, os novos indicadores utilizados para medir a temperatura da atividade econômica estão instáveis e eivados de incertezas, que a empolgação orquestrada acaba por encobrir e até mesmo ignorar pela conveniência do momento, ignorando a realidade e os eventuais indicadores falsos positivos.

A realidade evidencia que a despeito da elevação do juro, que depreciou adequadamente o preço do dólar e reduziu a volatilidade, a atração dos investidores estrangeiros seja para renda variável seja para renda fixa permaneceu quase nula, e o nosso fluxo cambial financeiro no ano apresenta irrisório saldo positivo.

O Brasil ainda é visto pelo mundo com bastante ceticismo, por isso está vivendo de sua própria empolgação ancorada, em parte com o cenário externo e parte com dados econômicos nacionais que podem se revelar instáveis.

Portanto, bolsa em alta não representa atividade econômica efetivamente aquecida de forma sustentável, são movimentos no Brasil desconectados dado o número pequeno de ações que compõem o índice, e o dólar sendo depreciado é consequência da equalização havida no juro que tantas vezes repetimos necessária.

Restam os preços relativos da economia marcados a mercado atrelados ao dólar revisarem seus preços para atenuar as pressões inflacionárias, gerando até momentaneamente uma deflação saudável e dando um input na capacidade de consumo da população.

O preço do dólar, com o juro ajustado e com viés de elevação, poderá recuar a R$ 4,50/4,60, e não será somente devido a fragilização da moeda americana no mercado internacional, sendo que a volatilidade também repercutirá sendo reduzida.

O país tem um CDS de 162 pontos, muito bom, e está ancorado mais pelas reservas cambiais que dispomos do que consideração a nossa frágil situação fiscal, pois em moeda estrangeira temos enorme capacidade de pagamento.

É relevante que se mantenha otimismo, mas é mais importante que se tenha foco efetivo na realidade e não na propagação dos anseios como se fossem realidades presentes, para evitar desapontamentos e reverter o otimismo que deve prevalecer sempre, mesmo como anseio.


Sidnei Moura Nehme
Economista e Diretor Executivo da NGO Corretora de Câmbio


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